Fui eu.
Todo homem tem um desejo interno
enorme de se superar e experimentar o novo. Eu sempre fui assim e por este
motivo acabei provando muito o sabor do bem e do mal. Na verdade a experiência
não é sinal de evolução e às vezes sucumbe como a necrose de uma sutura mal
feita, como um vicio exuberante e egoísta.
Ouvi dizerem que sabiam o que fiz
no verão passado e me rebelei. Rebelei contra mim mesmo, contra o que eu sábia
ser verdade, mas que pelo simples fato da revolta me neguei a aceitar. Quis
saber o limite do meu corpo e me entorpeci em busca de respostas, em busca de
paz ou apenas inércia, alegria desnecessária e sem razão que me fizesse deixar
de pensar em tudo que eu via. Tudo que eu quis foi deixar de ver, de entender e
de sentir. Em algum momento na insanidade ludibriada de vodka, wisky e um
charuto barato eu me desconstruí e devo admitir que foi único.
Em partes, juntei meus cacos no
chão e decidi que aquele caminho na era para mim. Na verdade a reviravolta de
minha vida se deu no meu primeiro encontro com ela, com a morte. Seu beijo frio
e doce tinha gosto de álcool e sangue. Gritava estridente dentro de mim como as
paixões iludidas que vivi ou como o carma que não se desfazia em amores
proibidos e relacionamentos iludidos. Eu quis o que não tive e tive o que não
quis e não suportei mais; cai todas as vezes que podia, quebrei a cara e
demorei muito para entender que a solidez não existe. Que a calmaria não vai
chegar e que a tempestade não vai passar.
Por entre as linhas que distorcia
disseminando meu gosto exótico, culto e conturbado eu impressionei e menti. Senti-me
melhor por algum tempo sendo o que eu gostaria de ser, mas o choque de
realidade que a vida nos dá sobrepõe o estereotipo de algoz poeta, encantador
de corações.
E como eu os encantei. Brinquei
com eles e os parti em mil e a cada um que destruía, deixava de perceber que na
verdade quem morria pouco a pouco sempre fui eu. O veneno que eu tomava
querendo que o outro morresse. Enquanto o tempo passava e as pessoas se reencontravam
em outros lugares com outras pessoas, eu continuava na ilusão sádica e doentia
de que o centro das realizações emocionais estava em mim, quando na verdade o
desprezo com que eu tratava a vida me retribuía em grau, numero e gênero.
E todas as voltas foram dadas,
tudo que poderia acontecer aconteceu. Onde há foco e vontade, haverá vitória. Mesmo
que Deus em sua infinita sabedoria traga suas mais belas jóias em acasos inevitáveis
e impensáveis. A única coisa capaz de cortar o diamante é outra lamina de
diamante. Logo, a única pessoa capaz de me transformar de verdade e retirar do
fundo do amargurado e desesperado homem que vivia em mim, só poderia ser alguém
como eu.
Alguém que tivesse partido um
coração por tanto tempo quanto eu. Que tivesse partido o próprio coração por
tanto tempo quanto eu e buscasse no brilho das luzes da noite o mesmo que eu.
Alguém que tivesse tanto para mudar, tanto para se reinventar e tanto para
aprender quanto eu. Só poderia me mostrar à vida, alguém que a visse como os
mesmos olhos que eu vi durante tanto tempo.
Eu fui à fênix e renasci no plano
de uma conquista difícil que, no entanto, era tão desafiadora quanto satisfatória.
Mesmo que caísse nas doenças do
passado como a nuvem negra tinge o céu azul e apaga a luz do por do sol que
tinha tudo para dar certo, para ser perfeito.
Encantei-me com o veneno da insatisfação
e cai na velha teia grudenta da mesma aranha venenosa e traiçoeira. E soube
antes mesmo que tudo acontece o fatídico fim de minha felicidade estava se
aproximando, como alguém em queda livre olhando o quanto o chão fica cada vez
mais próximo tornando o impacto inevitável.
Coube a Deus me abrir os olhos
pela enésima vez. O Deus que duvidei e não quis ver ou ouvir se manifestando
por tantas vezes em minha vida. Inclusive quando eu implorava por seu toque o
colocando em dúvida a todos que me rodeavam. Devo admitir que ainda não sou das
pessoas mais abertas a falar de religiosidade, já que tenho pra mim o afeto próprio
de não discutir religião, tendo em vista que a relatividade de cada
personalidade define de maneira única tudo que sentimos ou fazemos sentir para
com Deus.
Foi um acorde de guitarra que se
cala e se transforma na melodia doce de um violão. Foi à dor de uma tatuagem
que não se apaga e nem pode ser esquecida no punho, na veia, onde cortam os
pulsos dos suicidas, onde os lampejos de dor “emburrecem” os deprimidos.
Foi o choro doloroso da alma, no
meio da noite ou o sorriso terno e sincero no reencontro após um dia duro de
trabalho. Foi o toque de entorpecente que ainda sobrevive dos áureos tempos de
loucura, viajando no tempo, das garrafas de vinhos baratos até as cervejas
finas e caras de uma bela coleção.
Foi à vontade um sonho, foi o
desejo de conhecer o futuro que por muito tempo eu desperdicei. Foi como
encontrar razão onde não havia explicação e por mais que fosse impossível de
imaginar como alguém podia tanto e tanto errar, foi no erro que eu aprendi a
acertar.
Certa vez ouvi em um filme que o
ser humano mostra sua face mais nobre diante do horror e só assim podemos ver o
quanto somos nobres, o quanto há horror.
Eu nunca fiz questão de estar
aqui, eu nunca quis participar. Ainda acho que o meu cotidiano vai me largar.
Um dia eu vou morrer, um dia eu chego lá. Mas foi o tempo perdido, o amor não
entregue, a falta de sinceridade e tudo que vier eu fiz por merecer.
Quase toda vez que evolui, não
consegui relaxar por que quis mais e demais. Eu podia estar em qualquer lugar
vivendo o que sempre vivi, mas não.
Foi Deus.
Foi o amor.
Foi e meiguice de uma filha.
Foi à força de uma mulher.
No fundo e bem no fundo, o resumo
de minha história não fui eu, mas tudo que eu fiz e tudo que ganhei ou perdi
para chegar até aqui.
Foi o que me fez e faz acreditar.
Foi tudo, onde tudo foi e sempre
será [...] você. Tania.
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